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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
O corvo, de Edgar Allan Poe (tradução de Machado de Assis)
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras taes:
«É alguem que me bate à porta de mansinho;
«Há de ser isso e nada mais.»
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial
Dezembro;
Cada braza do lar sobre o chão reflectia
A sua ultima agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Saccar d’aquelles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dôr esmagadora
D’estas saudades immortaes
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguem chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por elle padecido.
Enfim, por applacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de prompto, e: «Com effeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
«Que bate a estas horas taes.
«É visita que pede à minha porta entrada:
«Há de ser isso e nada mais.»
Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacillo e d’esta sorte
Fallo: «Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
«Me desculpeis tanta demora.
«Mas como eu, precisado de descanço,
«Já cochilava, e tão de manso e manso
«Batestes, não fui logo, prestemente,
«Certificar-me que ahi estaes.»
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra unica e dilecta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca saes;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro co’a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:
«Seguramente, há na janella
«Alguma cousa que sussura. Abramos
«Eia, fôra o temor, eia, vejamos
«A explicação do caso mysterioso
«D’essas duas pancadas taes.
«Devolvamos a paz ao coração medroso,
«Obra do vento e nada mais.»
Abro a janella, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortezias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E prompto e recto
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima vôa dos portaes,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;
repado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquella rigida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me alli por um momento,
E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas
«Vens, embora a cabeça nua tragas,
«Sem topete, não és ave medrosa,
«Dize as teus nomes senhoriaes;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
E o corvo disse; «Nunca mais.»
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico attônito, embora a resposta que dera
Difficilmente lh’a entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
N’um busto, acima dos portaes,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: «Nunca mais.»
No emtanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que alli disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma
Até que eu murmurei: «Perdi outr’ora
Tantos amigos tão leaes!
«Perderei também este em regressando a aurora.»
E o corvo disse: «Nunca mais!»
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exacta! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia
«Que elle trouxe da convivência
«De algum mestre infeliz e acabrunhado
«Que o implacavel destino há castigado
«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
«Que dos seus cantos usuaes
«Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
«Esse estribilho: «Nunca mais.»
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no velludo
Da poltrona que eu mesmo alli trouxera
Achar procuro a lúgubre chimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquellas syllabas fataes,
Entender o que quiz dizer a ave do medo
Grasnando a phrase: — Nunca mais.
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
Sentia o olhar que me abrazava.
Conjecturando fui, tranquillo, à gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada cahiam
Onde as tranças angelicaes
De outra cabeça outr’ora alli se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Suppuz então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de seraphins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro thuríbulo invisível;
E eu exclamei então: «Um Deus sensivel
«Manda repouso à dor que te devora
«D’estas saudades immortaes.
«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
«Onde reside o mal eterno,
«Ou simplesmente náufrago escapado
«Venhas do temporal que te há lançado
«N’esta casa onde o Horror, o Horror profundo
«Tem os seus lares triumphaes,
«Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!
«Por esse céu que além se estende,
«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,
«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a
«No Éden celeste a virgem que ella chora
«Nestes retiros sepulchraes,
«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
«Ave ou demônio que negrejas!
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
«Regressa ao temporal, regressa
«À tua noite, deixa-me commigo.
«Vae-te, não fique no meu casto abrigo
«Pluma que lembre essa mentira tua.
«Tira-me ao peito essas fataes
«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»
E o corvo ahi fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Pallas; ei-lo immutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz cahida
Do lampeão sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fóra
D’aquellas linhas funeraes
Que fluctuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
Edgar Allan Poe
domingo, 18 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
domingo, 11 de janeiro de 2026
Poemas presos
A maioria das doenças que as pessoas têm
são poemas presos
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar
de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida
é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida
é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida
é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido
é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis
use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama
e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal,
de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo
Viviane Mosé
sábado, 10 de janeiro de 2026
sábado, 3 de janeiro de 2026
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